sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Sucesso e Inveja 
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 03/09/2014)

Um amigo me ligou reportando que se o Supremo Tribunal Federal propôs na última quinta, 28, um projeto de lei para aumentar os salários dos ministros da Corte, nós, servidores do judiciário, iríamos "nos dar bem". Esse projeto em nada beneficia o servidor do judiciário federal, que fique claro.

O Poder Executivo apresentou ao Congresso Nacional o texto do Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) para 2015 sem previsão de recursos para o reajuste dos servidores do Poder Judiciário e do Ministério Público da União (MPU). Só na sexta que o STF protocolou, na Câmara dos Deputados, um novo projeto de lei que contém a reposição salarial dos servidores do judiciário. Naturalmente não haverá o mesmo interesse de se viabilizar, como será o dos ministros. É uma luta desigual. Mas o que percebi foi talvez uma velada inveja. Será verdade ou folclore que o brasileiro se incomoda com o sucesso do outro? "Fazer sucesso no Brasil é ofensa pessoal", afirmou Tom Jobim.

Procuro estudar o comportamento humano e sempre me pergunto sobre essa questão. Já fui alvo de situações que me levaram a acreditar na possibilidade. O antropólogo Roberto DaMatta, em seu livro Crônicas da vida e da morte, trata de vários assuntos, entre eles a inveja. E afirma, ipsis litteris: “A inveja é um sentimento básico no Brasil. Está para nascer um brasileiro sem inveja. A coisa é tão forte que falamos em ‘ter’, em vez de ‘sentir’ inveja.Outros seres humanos e povos sentem inveja (um sentimento entre tantos outros), mas nós somos por ela possuídos. Tomados pela conjunção perversa e humana do ódio e do desgosto, promovida justamente pelo sucesso alheio".

É possível que você, caro leitor, esteja agora se excluindo dessa taxativa afirmação, mas seguramente vai lembrar de algum ato de inveja que sofreu. Mas será mesmo uma verdade: colecionamos, a depender do grau de exposição e ou sucesso, incômodos, desconfortos e ciúmes de toda natureza por tudo que conquistamos e trabalhamos?
Destino ou fatalidade? 
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 20/08/2014)

A morte de Eduardo Campos chocou o país, mais uma vez a perplexidade recai sobre o inexorável da vida: o morrer. Neste momento, cada um externa os seus simbolismos, representações e interpretações acerca da morte muito particularmente, geralmente carregados de vivência, experiências, religião... e neste último aspecto enxameiam de questionamentos o público, de um modo geral, se foi fatalidade ou destino, uma vez que, defendem muitos, nada acontece por acaso? 

O certo é que vivemos em um mundo onde estamos sujeitos a tudo a qualquer momento, logo é verdade que nada acontece por acaso, não por fatalismo, ou destino, mas por propensão de ambiência. Não há de se falar em destino, como algo pré-estabelecido, uma vez que não somos marionetes em mãos de sei lá quem para o que for. O estar neste mundo envolve riscos, escolhas, com consequências de perdas e ganhos. Nesta vida, cada decisão nos leva a determinadas vitórias e ou fracassos, expondo-nos a situações de perigo em determinadas direções mais do que em outras. 

O mundo ocidental transformou a morte em tabu, onde ela não pode fazer parte das conversas, é preciso evitar o desconforto da certeza da finitude biológica. O medo vira pânico, pois sobrevém a certeza de que tudo é passageiro, absolutamente tudo. "Enquanto os homens exercem seus podres poderes" por toda parte e lados, desde o núcleo familiar até os cimos dos que se julgam condutores de vidas, sem a compreensão de que nada é para sempre, a ideia de morte ainda vai trazer o vazio da angústia, da aflição de um dia deixar de ser, na razão direta da ilusão de que somos o que temos, ou aparentamos ter, em uma guerra exaustiva de apenas satisfazer desejos, de sobrepor uns aos outros por força dos papeis que exercemos no momento.

Tenhamos a certeza que tudo é um ciclo: viver e morrer, então vivamos cada vez mais alargando o sentido de nossa vida, não deixando para arrumar a mala no último hausto do existir, pois nunca se sabe quando será.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Sentimento virtual 
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 06/08/2014)

Após o último artigo que escrevi aqui sobre o excesso da comunicação virtual, inclusive com as pessoas presentes na mesma casa, recebi alguns e-mails com situações inusitadas dentro deste contexto. Então me pus a observar.

Publiquei um pequeno texto em uma das redes sociais e fiquei surpreso com as centenas de pessoas que opinaram e compartilharam favoravelmente. Ou seja, está, de fato, havendo um incômodo do excessivo viver virtual. Eu relatava que almoçava em um shopping e me chamaram a atenção as pessoas no entorno que, nas mesas, comiam e, ao mesmo tempo, digitavam um, dois até três celulares... nem olhavam para o prato. Fui então prestando atenção mais e mais aos que passavam... caminhavam digitando, desciam escada, alguns sozinhos, outros em grupo e sempre digitando nos seus smartphones... não olhavam nada em volta. As pessoas estão perdendo o prazer das coisas simples da vida, para estarem mais alertas e ansiosas aos apitos das postagens nas redes sociais.

Não sou concorde, claro, com o que disse Chaplin no seu célebre discurso em O último ditador de que, "mais do que máquinas, precisamos de humanidade". De forma alguma, seria tentar reter o inexorável, mas por que não associamos as possibilidades digitais para realmente sermos mais próximos? Por que a tecnologia tem que ser excludente da humanidade, substituindo o falar, o sentir por figuras? Por que precisamos ser possuídos e não possuir as tecnologias?

Recupere o prazer de estar com amigos pessoalmente. Não poste foto de comida, convide para comerem juntos. Não apenas compartilhe, mas vivencie a presença dos amigos, mesmo colegas de almoço, ainda que seja para falar abobrinha. Falar bobagens também pode dar prazer. Viva mais o seu em volta, prestando atenção às pessoas que passam, às formações das nuvens, à ressaca do mar... olhe mais para o mundo, para a vida e menos para o seu smartphone, pelo menos em determinados momentos. O seu celular pode estar sendo um perigoso vício.

domingo, 3 de agosto de 2014

O tal dia do amigo.
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 30/07/2014)

No último domingo meu celular apitou algumas vezes com mensagens de pessoas me desejando feliz dia do amigo, nem lembrava. Algumas mensagens de fato eram pessoais, outras eram apenas repetidoras do tal copiar e colar geral, que se faz nesses celulares, que eu não tenho a menor ideia de como é feito, mas é algo que vai para todo mundo que está na sua lista de telefone.
Apenas de valor protocolar. 

Aristóteles dizia que a amizade "é uma alma em dois corpos", mas notamos que esta alma parece que não anda muito a fim de se dividir. Nestes dias de redes sociais e celulares de última geração, as pessoas não têm se dado ao trabalho de buscar, de conversar, pois é um tal de curtir e compartilhar sem mesmo ter noção do que faz. O chavão é real: com tanta facilidade de se comunicar, as pessoas estão tão distantes.

Recentemente, estava em casa de uma amiga, onde o filho, do quarto, mandou um whatsapp informando que não iria jantar conosco. Eu observava, ela respondeu: “OK”. Tudo de uma forma tão natural, que me choquei comigo mesmo, pois para mim nada daquilo soava natural, ainda que muito tecnológico.

Será que de fato as emoções do século XXI só serão as passadas pelos aparelhos? Será que as pessoas se sentem felizes e preenchidas com essa forma nova de se relacionar? Essas ferramentas são ótimas, claro, mas penso que não substituem os apertos de mãos, os abraços, os beijos.

Essas figurinhas representativas de afetos e sentimentos, os tais "emoticons" não podem substituir uma palavra dita, uma emoção passada com verdade. Ou talvez eu é que esteja no passado, mas ainda penso que tudo pode ser usado, sem, no entanto, desprezar o contato, o real. 

A tecnologia talvez tenha nos tornado mais protocolares e cada vez menos amoráveis, pois o que vale será sempre o rápido, o instantâneo, pois não temos tempo a perder como pessoal. Ficamos no virtual, pois pode dissimular, inventar, mentir e não tem o olho no olho. Mas é isso: está sendo assim e continuará.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Inveja oculta.
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 09/07/2014)

Todos sabíamos que Neymar, como todo craque, seria perseguido em campo para evitar as suas jogadas desconcertantes e diferenciadas. Fiquei, no entanto, me perguntando se só seria por isso? Vi, então, o empurrão que o jogador camaronês deu no craque, de forma gratuita, sem qualquer lance com a bola. Ali tinha mais do que marcação: parecia raiva, talvez pelo que ele representasse de sucesso, brilho. Pergunto-me se não foi o mesmo com o colombiano? Ele foi no mínimo desleal. 

Postei minha opinião em uma rede social, houve milhares de manifestações e compartilhamentos. Alguns poucos disseram ser confronto normal de jogo, houve quem dissesse que Neymar mereceu e até quem achasse que eu devesse falar do acidente em Belo Horizonte e não o que aconteceu com um jogador rico, que teria o melhor tratamento possível. Como sempre, também, apareceram os evoluídos de plantão, pedindo que não julgássemos, que não isto, não aquilo...

Falta à nossa sociedade, entendo, pensar as suas próprias vísceras, a fim de se criar a cultura da análise avaliativa de tudo que está acontecendo no seu cerne, que se evidencia de forma óbvia ou não, pois é assim que se constroem
parâmetros de civilidade e condutas.

É fato, o brilho atrai a inveja, e ela pode gerar ciúme e raiva. Há a inveja estimulante, que inspira imitação. Mas há a inveja destrutiva que sempre vem acompanhada de sentimentos comparativos que atordoam o invejoso, e aí, na falta de autocensura, passa a valer tudo contra o seu alvo. No primeiro momento o invejoso difama, calunia e evidencia do que é capaz, mas quando a inveja se materializa surge a necessidade de eliminar o brilho incômodo do invejado.

E não se engane: a inveja pode estar entre familiares, amigos, colegas, pois, à medida que você faz mais sucesso, tem mais êxito, surgirão os inimigos espontâneos, querendo tirar o seu brilho, seja ele do tamanho que for. “O invejoso é um caçador, querendo abater o alvo da sua inveja”, para ter “paz” em seus incômodos.

sábado, 28 de junho de 2014

Apenas Teóricos.
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 25/06/2014)

Estava com um grupo de amigos conversando sobre os lamentáveis episódios do xingamento à presidente da república quando dois dos presentes omeçaram a falar das tais elites brancas, burguesas. Ouvi tudo, mas, inevitáveis, vieram à minha mente as vidas daqueles meus amigos: um, morador em uma cobertura e outro, em uma excelente casa em condomínio fechado. Naturalmente, merecidas conquistas, frutos dos seus trabalhos e lutas. É tão interessante, no entanto, essas ideologias não têm qualquer lastro de prática. São teóricos sem ação, a rotular os outros de elite, burgueses. 

Permita-me, leitor, antes que alguém também me rotule com o mesmo, registro orgulhoso que fui morador da Preguiça, lavador de carro na fonte dos padres, na Mauá, mas apostei na educação como forma de sair daquela situação. Hoje sou servidor federal, e fundei aos 17 anos, com amigos, a Cidade da Luz, que no ano passado fez mais de duzentos mil atendimentos sociais. 

Assim, acredito que falo com certa propriedade. Por isto, quando vejo discursos rotulados, cheios de efeitos verbais e sociais, mas seus autores vivem paradoxalmente em outra direção, acho esquisito. Fazem uma definição estrutural da sociedade meramente descritiva, teórica, levantando ideais para os outros realizarem.

Ora, em uma sociedade verdadeiramente livre, democrática, cada um busca o que necessita, com princípios, como recompensa de suas investidas nos estudos, no trabalho. Vejo nesses discursos as propagandas empoeiradas do século XIX, em um conjunto de ideias e crenças destinadas a construir efeitos de verdade, mas que serviram a alguns como degraus para o poder e a dominação, em uma espécie de legitimação messiânica.

Percebo, em verdade, uma perigosa tentativa divisionista social, como forma de gerar lados, em uma nação que deve primar, em valorização, pela sua origem e formação, por um sentido de unidade, e "a cada um segundo as suas obras", sem se perder no egoísmo, gerando realmente na prática o possível de igualdade.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Devagar, Risério.
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 11/06/2014)

Sou verdadeiramente admirador do escritor Antonio Risério, sua visão arguta de acontecimentos e fatos históricos não guarda qualquer paralelo como senso comum. Sou levado, no entanto, por natureza não omissa, a discordar do seu artigo do último sábado, onde, com o título "Em defesa dos vândalos", ele se propõe a uma comparação de valores de ação entre o que os vândalos fazem e o que o pessoal de colarinho branco faz. Não incita desordem, mas faz escala de valores. Em determinado momento até afirma que "queimar um ônibus não é nada, em comparação com as matas incendiadas pelo agronegócio." Não penso, por outro lado, que se pode compensar crimes, em classificação comparativa, tendo por cobertura resultado de prejuízos. A linha de raciocínio do ilustre pensador caminha por terreno perigoso, posto que vivemos em sociedade e, em verdade, as pessoas já se permitem, dentro deste entendimento, que, se alguém faz, elas também podem fazer.

Uns e outros são crimes, que necessitam de ação balizadora, como instrumento de dissuasão, a fim de que não regridamos a épocas em que as leis eram feitas pela vontade dos mais fortes, dos com mais poder de opressão e medo. Entendo que devamos trabalhar pela prevalência do legal, sempre contra a impunidade, mesmo sabendo que o legal pode não ser, muitas vezes, o justo. Fico imaginando que aqueles "justiceiros" do Rio de Janeiro que argolaram um jovem ao poste justificaram o feito pelo crime que ele cometeu, crendo que o deles foi de menor monta. É temerário flexibilizar, tolerar ações criminosas de qualquer natureza, porquanto gera repetição. Deteriora a vida em sociedade.


De outra parte, entendo que as teorias acadêmicas fortalecem mentes pensantes, mas o individualismo subjetivo do que se tem como certo não pode suprir a realidade de uma sociedade em convulsão, visto que o caldeirão não suporta a pressão de utopias que se deformam na aplicação prática. O caminho não pode ser taliânico, mas educativo.


ESTE ARTIGO DE J. MEDRADO, QUE ESCREVE QUINZENALMENTE NA 4ª-FEIRA, RESPONDE AO DE A. RISÉRIO (7.6.14), QUE PODE SER LIDO NO PORTAL A TARDE: ATARDE.COM.BR/OPINIAO.