quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Não dá, desistimos. 
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 01.10.2014)

Não sei se é verdade ou mentira, produto do momento eleitoral, ou não, mas realmente a nós que realizamos, por ideal, trabalho social sério, onde a luta para a conquista de míseros reais é hercúlea, saber de escândalos envolvendo dinheiro público, como o do tal Instituto Brasil, é uma agressão na alma. As cifras sempre astronômicas. À guisa de informação: um abrigo (orfanato) que mantém cerca de 40 crianças recebe de recurso público não mais que R$ 120 mil por ano, isto: por ano, e vermos a suspeita de o nosso dinheiro público ser jogado na vala da corrupção é de deprimir. Claro, os políticos vêm a público pedir investigações severas. Você, leitor, lembra do escândalo da Pierre Bourdieu, envolvendo a Secretaria de Educação do Município, na gestão de João Henrique, pois é. Em que deu, eram muitos milhões?

Nós que conduzimos instituições sérias – no caso da Cidade da Luz todos os diretores somos voluntários, nada ganhamos pela atividade no bem – só amargamos obrigações, imposições verticalizadas de burocratas e técnicos "doutores". Recentemente, veio uma determinação do Ministério do Desenvolvimento Social impondo restrições aos abrigos. A fim de aumentar a per capita, teremos que abrigar no máximo 20 crianças, mesmo que o espaço comporte confortavelmente mais de 40; e mais: a obrigação de assumir, quando encaminhados, irmãos que podem ter de 0 a 17 anos, fugindo, como é o nosso caso, ao perfil que temos de recepção, que é de 2 a 9 anos.Agora, se assinássemos o protocolo de mudança, o que não fizemos, teríamos a obrigação de receber rapazes de até 17 anos, ou seja, quase homens para os dias atuais, mesmo tendo meninas, mocinhas com 13, 14 anos vivendo no abrigo.

Somos referências na ação séria, comprometida, aí estão o Juizado da Infância e Juventude e o Ministério Público para afirmarem ou não. Eles têm realizado um grande trabalho, mas o poder é político e geralmente cheio de teóricos que fogem à realidade da nossa experiência. Desistimos.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Obras de Gauguin e Berthe com os meus votos de uma Primavera cheia de flores para vocês. Estarei viajando atendendo convites do Arthur Findlay College e das Igrejas espiritualistas da Grã-Bretanha. No possível vou postando alguma coisa por aqui. Até. (Ampliem e vejam a abordagem do vaso em si de Gauguin).





"Seja você a mudança que quer ver no mundo" (Mahatma Gandhi)
Medrado citou em sua palestra a frase de Gandhi e corroborou dizendo: "As pessoas percebem que quando o campo energético é saturado, no melhor dos sentidos, com ações mobilizadoras, com pensamentos enriquecedores, com sorriso, com alegria, ele vai se projetar com leveza, vai se desdobrar contagiando e isso faz uma verdadeira corrente invisível de sensibilização e as pessoas do entorno vão sendo envolvidas.



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Política e Educação 
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 17/09/2014)

Se, de fato, a educação é o caminho para o avanço de uma sociedade, na conquista de um país mais equânime, segundo estudos de toda natureza, por que o Brasil nunca realmente se lançou a este processo, seguindo países que se tornaram grandes potências exatamente por conta desta senda? Aqui e ali sempre ouvimos que a ignorância do povo favorece a cena do ilusionismo dos políticos, em manutenção perpétua do seu malabarismo verbal para iludir, do contorcionismo moral para suas alianças e conchavos, pois para a maioria o que vale é ganhar.

Nesse vale-tudo, o mundo cão sai de alguns programas com certa audiência e vai para o horário político, em espetáculo de engodo e agressões. Os fins justificam os meios. Lá atrás muitos dos admiradores de Lula desferiam a sua ira contra Regina Duarte que dizia ter medo do que pudesse acontecer com o Brasil, sendo Lula presidente. Collor foi menos que rasteiro ao apresentar uma ex-namorada de Lula que falou sobre o pedido de aborto feito pelo líder sindicalista. O que mudou? Nada, ou melhor, os atores das cenas.

Aposta-se no eleitorado fanático de todos os lados, que, movido pela paixão, sem reflexão, nunca vê nada de equivocado ou falacioso em seus candidatos, sejam eles de que tendência for. Nesse sentido, ação combatida ontem surge como objeto de convencimento hoje, como camaleões não guardam ideais, mas a sanha de vencer a todo custo. Alguém já disse que somente através de uma mudança cultural real, não demagógica, inserindo nas grades curriculares um sistema educacional sem peias, que ensine a importância da política na vida do povo e orientando as crianças que votar é praticar a plenitude da cidadania, para o bem geral e comum, conscientizando para o pleno exercício do ser cidadão. Dessa forma, passaremos realmente a ser uma democracia representativa, onde a consciência será o mote do voto, não o interesse imediato, realçado pelas chantagens de marqueteiros escalados para moldarem sonhos e ilusões.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Sucesso e Inveja 
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 03/09/2014)

Um amigo me ligou reportando que se o Supremo Tribunal Federal propôs na última quinta, 28, um projeto de lei para aumentar os salários dos ministros da Corte, nós, servidores do judiciário, iríamos "nos dar bem". Esse projeto em nada beneficia o servidor do judiciário federal, que fique claro.

O Poder Executivo apresentou ao Congresso Nacional o texto do Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) para 2015 sem previsão de recursos para o reajuste dos servidores do Poder Judiciário e do Ministério Público da União (MPU). Só na sexta que o STF protocolou, na Câmara dos Deputados, um novo projeto de lei que contém a reposição salarial dos servidores do judiciário. Naturalmente não haverá o mesmo interesse de se viabilizar, como será o dos ministros. É uma luta desigual. Mas o que percebi foi talvez uma velada inveja. Será verdade ou folclore que o brasileiro se incomoda com o sucesso do outro? "Fazer sucesso no Brasil é ofensa pessoal", afirmou Tom Jobim.

Procuro estudar o comportamento humano e sempre me pergunto sobre essa questão. Já fui alvo de situações que me levaram a acreditar na possibilidade. O antropólogo Roberto DaMatta, em seu livro Crônicas da vida e da morte, trata de vários assuntos, entre eles a inveja. E afirma, ipsis litteris: “A inveja é um sentimento básico no Brasil. Está para nascer um brasileiro sem inveja. A coisa é tão forte que falamos em ‘ter’, em vez de ‘sentir’ inveja.Outros seres humanos e povos sentem inveja (um sentimento entre tantos outros), mas nós somos por ela possuídos. Tomados pela conjunção perversa e humana do ódio e do desgosto, promovida justamente pelo sucesso alheio".

É possível que você, caro leitor, esteja agora se excluindo dessa taxativa afirmação, mas seguramente vai lembrar de algum ato de inveja que sofreu. Mas será mesmo uma verdade: colecionamos, a depender do grau de exposição e ou sucesso, incômodos, desconfortos e ciúmes de toda natureza por tudo que conquistamos e trabalhamos?

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Destino ou fatalidade? 
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 20/08/2014)

A morte de Eduardo Campos chocou o país, mais uma vez a perplexidade recai sobre o inexorável da vida: o morrer. Neste momento, cada um externa os seus simbolismos, representações e interpretações acerca da morte muito particularmente, geralmente carregados de vivência, experiências, religião... e neste último aspecto enxameiam de questionamentos o público, de um modo geral, se foi fatalidade ou destino, uma vez que, defendem muitos, nada acontece por acaso? 

O certo é que vivemos em um mundo onde estamos sujeitos a tudo a qualquer momento, logo é verdade que nada acontece por acaso, não por fatalismo, ou destino, mas por propensão de ambiência. Não há de se falar em destino, como algo pré-estabelecido, uma vez que não somos marionetes em mãos de sei lá quem para o que for. O estar neste mundo envolve riscos, escolhas, com consequências de perdas e ganhos. Nesta vida, cada decisão nos leva a determinadas vitórias e ou fracassos, expondo-nos a situações de perigo em determinadas direções mais do que em outras. 

O mundo ocidental transformou a morte em tabu, onde ela não pode fazer parte das conversas, é preciso evitar o desconforto da certeza da finitude biológica. O medo vira pânico, pois sobrevém a certeza de que tudo é passageiro, absolutamente tudo. "Enquanto os homens exercem seus podres poderes" por toda parte e lados, desde o núcleo familiar até os cimos dos que se julgam condutores de vidas, sem a compreensão de que nada é para sempre, a ideia de morte ainda vai trazer o vazio da angústia, da aflição de um dia deixar de ser, na razão direta da ilusão de que somos o que temos, ou aparentamos ter, em uma guerra exaustiva de apenas satisfazer desejos, de sobrepor uns aos outros por força dos papeis que exercemos no momento.

Tenhamos a certeza que tudo é um ciclo: viver e morrer, então vivamos cada vez mais alargando o sentido de nossa vida, não deixando para arrumar a mala no último hausto do existir, pois nunca se sabe quando será.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Sentimento virtual 
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 06/08/2014)

Após o último artigo que escrevi aqui sobre o excesso da comunicação virtual, inclusive com as pessoas presentes na mesma casa, recebi alguns e-mails com situações inusitadas dentro deste contexto. Então me pus a observar.

Publiquei um pequeno texto em uma das redes sociais e fiquei surpreso com as centenas de pessoas que opinaram e compartilharam favoravelmente. Ou seja, está, de fato, havendo um incômodo do excessivo viver virtual. Eu relatava que almoçava em um shopping e me chamaram a atenção as pessoas no entorno que, nas mesas, comiam e, ao mesmo tempo, digitavam um, dois até três celulares... nem olhavam para o prato. Fui então prestando atenção mais e mais aos que passavam... caminhavam digitando, desciam escada, alguns sozinhos, outros em grupo e sempre digitando nos seus smartphones... não olhavam nada em volta. As pessoas estão perdendo o prazer das coisas simples da vida, para estarem mais alertas e ansiosas aos apitos das postagens nas redes sociais.

Não sou concorde, claro, com o que disse Chaplin no seu célebre discurso em O último ditador de que, "mais do que máquinas, precisamos de humanidade". De forma alguma, seria tentar reter o inexorável, mas por que não associamos as possibilidades digitais para realmente sermos mais próximos? Por que a tecnologia tem que ser excludente da humanidade, substituindo o falar, o sentir por figuras? Por que precisamos ser possuídos e não possuir as tecnologias?

Recupere o prazer de estar com amigos pessoalmente. Não poste foto de comida, convide para comerem juntos. Não apenas compartilhe, mas vivencie a presença dos amigos, mesmo colegas de almoço, ainda que seja para falar abobrinha. Falar bobagens também pode dar prazer. Viva mais o seu em volta, prestando atenção às pessoas que passam, às formações das nuvens, à ressaca do mar... olhe mais para o mundo, para a vida e menos para o seu smartphone, pelo menos em determinados momentos. O seu celular pode estar sendo um perigoso vício.