quinta-feira, 10 de julho de 2014

Inveja oculta.
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 09/07/2014)

Todos sabíamos que Neymar, como todo craque, seria perseguido em campo para evitar as suas jogadas desconcertantes e diferenciadas. Fiquei, no entanto, me perguntando se só seria por isso? Vi, então, o empurrão que o jogador camaronês deu no craque, de forma gratuita, sem qualquer lance com a bola. Ali tinha mais do que marcação: parecia raiva, talvez pelo que ele representasse de sucesso, brilho. Pergunto-me se não foi o mesmo com o colombiano? Ele foi no mínimo desleal. 

Postei minha opinião em uma rede social, houve milhares de manifestações e compartilhamentos. Alguns poucos disseram ser confronto normal de jogo, houve quem dissesse que Neymar mereceu e até quem achasse que eu devesse falar do acidente em Belo Horizonte e não o que aconteceu com um jogador rico, que teria o melhor tratamento possível. Como sempre, também, apareceram os evoluídos de plantão, pedindo que não julgássemos, que não isto, não aquilo...

Falta à nossa sociedade, entendo, pensar as suas próprias vísceras, a fim de se criar a cultura da análise avaliativa de tudo que está acontecendo no seu cerne, que se evidencia de forma óbvia ou não, pois é assim que se constroem
parâmetros de civilidade e condutas.

É fato, o brilho atrai a inveja, e ela pode gerar ciúme e raiva. Há a inveja estimulante, que inspira imitação. Mas há a inveja destrutiva que sempre vem acompanhada de sentimentos comparativos que atordoam o invejoso, e aí, na falta de autocensura, passa a valer tudo contra o seu alvo. No primeiro momento o invejoso difama, calunia e evidencia do que é capaz, mas quando a inveja se materializa surge a necessidade de eliminar o brilho incômodo do invejado.

E não se engane: a inveja pode estar entre familiares, amigos, colegas, pois, à medida que você faz mais sucesso, tem mais êxito, surgirão os inimigos espontâneos, querendo tirar o seu brilho, seja ele do tamanho que for. “O invejoso é um caçador, querendo abater o alvo da sua inveja”, para ter “paz” em seus incômodos.

sábado, 28 de junho de 2014

Apenas Teóricos.
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 25/06/2014)

Estava com um grupo de amigos conversando sobre os lamentáveis episódios do xingamento à presidente da república quando dois dos presentes omeçaram a falar das tais elites brancas, burguesas. Ouvi tudo, mas, inevitáveis, vieram à minha mente as vidas daqueles meus amigos: um, morador em uma cobertura e outro, em uma excelente casa em condomínio fechado. Naturalmente, merecidas conquistas, frutos dos seus trabalhos e lutas. É tão interessante, no entanto, essas ideologias não têm qualquer lastro de prática. São teóricos sem ação, a rotular os outros de elite, burgueses. 

Permita-me, leitor, antes que alguém também me rotule com o mesmo, registro orgulhoso que fui morador da Preguiça, lavador de carro na fonte dos padres, na Mauá, mas apostei na educação como forma de sair daquela situação. Hoje sou servidor federal, e fundei aos 17 anos, com amigos, a Cidade da Luz, que no ano passado fez mais de duzentos mil atendimentos sociais. 

Assim, acredito que falo com certa propriedade. Por isto, quando vejo discursos rotulados, cheios de efeitos verbais e sociais, mas seus autores vivem paradoxalmente em outra direção, acho esquisito. Fazem uma definição estrutural da sociedade meramente descritiva, teórica, levantando ideais para os outros realizarem.

Ora, em uma sociedade verdadeiramente livre, democrática, cada um busca o que necessita, com princípios, como recompensa de suas investidas nos estudos, no trabalho. Vejo nesses discursos as propagandas empoeiradas do século XIX, em um conjunto de ideias e crenças destinadas a construir efeitos de verdade, mas que serviram a alguns como degraus para o poder e a dominação, em uma espécie de legitimação messiânica.

Percebo, em verdade, uma perigosa tentativa divisionista social, como forma de gerar lados, em uma nação que deve primar, em valorização, pela sua origem e formação, por um sentido de unidade, e "a cada um segundo as suas obras", sem se perder no egoísmo, gerando realmente na prática o possível de igualdade.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Devagar, Risério.
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 11/06/2014)

Sou verdadeiramente admirador do escritor Antonio Risério, sua visão arguta de acontecimentos e fatos históricos não guarda qualquer paralelo como senso comum. Sou levado, no entanto, por natureza não omissa, a discordar do seu artigo do último sábado, onde, com o título "Em defesa dos vândalos", ele se propõe a uma comparação de valores de ação entre o que os vândalos fazem e o que o pessoal de colarinho branco faz. Não incita desordem, mas faz escala de valores. Em determinado momento até afirma que "queimar um ônibus não é nada, em comparação com as matas incendiadas pelo agronegócio." Não penso, por outro lado, que se pode compensar crimes, em classificação comparativa, tendo por cobertura resultado de prejuízos. A linha de raciocínio do ilustre pensador caminha por terreno perigoso, posto que vivemos em sociedade e, em verdade, as pessoas já se permitem, dentro deste entendimento, que, se alguém faz, elas também podem fazer.

Uns e outros são crimes, que necessitam de ação balizadora, como instrumento de dissuasão, a fim de que não regridamos a épocas em que as leis eram feitas pela vontade dos mais fortes, dos com mais poder de opressão e medo. Entendo que devamos trabalhar pela prevalência do legal, sempre contra a impunidade, mesmo sabendo que o legal pode não ser, muitas vezes, o justo. Fico imaginando que aqueles "justiceiros" do Rio de Janeiro que argolaram um jovem ao poste justificaram o feito pelo crime que ele cometeu, crendo que o deles foi de menor monta. É temerário flexibilizar, tolerar ações criminosas de qualquer natureza, porquanto gera repetição. Deteriora a vida em sociedade.


De outra parte, entendo que as teorias acadêmicas fortalecem mentes pensantes, mas o individualismo subjetivo do que se tem como certo não pode suprir a realidade de uma sociedade em convulsão, visto que o caldeirão não suporta a pressão de utopias que se deformam na aplicação prática. O caminho não pode ser taliânico, mas educativo.


ESTE ARTIGO DE J. MEDRADO, QUE ESCREVE QUINZENALMENTE NA 4ª-FEIRA, RESPONDE AO DE A. RISÉRIO (7.6.14), QUE PODE SER LIDO NO PORTAL A TARDE: ATARDE.COM.BR/OPINIAO.
País de Hipocrisia
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 28/05/2014)


O Brasil se evidencia como um país liberal no campo do respeito à liberdade de ser, desde questões por cor da pele, passando pela orientação sexual, até a escolha da religião, como se tudo fosse aceito, normal. Vê-se no entanto que tudo isso é discurso, pois a realidade demonstra que somos um país de preconceituosos e dissimulados, posamos de politicamente corretos, mas, no dia a dia, a prática toma outro rumo. Impera a hipocrisia. No começo do presente século, o Dr. Doudou Diène, relator especial da Comissão de Direitos Humanos da ONU, em pesquisa no Brasil, incluindo Salvador, afirmou que o Brasil estava cada dia mais preconceituoso, como se o possível clima de liberdade e desrespeito às leis estivesse estimulando as pessoas a se revelarem.

Duvidei, porém recentemente, mais atento, vi a realidade desse crescimento: um juiz segundo a sua definição afirmou que o candomblé e a umbanda não são religiões. Voltou atrás. Faz pouco uma senhora veio a mim e registrou o seu protesto, afirmando que eu brincava muito, que precisava levar mais a sério as coisas da espiritualidade. Sorri e ouvi as suas ponderações ilustradas com exemplos, e ao término me perguntou, como se convencida de que teria resgatado uma alma do purgatório: “E então?” Ao que disse: “Senhora, permita-me discordar, mas o alegre nunca foi ausência de seriedade, muito riso não significa pouco siso, e sabe de uma coisa, permita-me a imodéstia, mas eu procuro fazer algo pelas pessoas e a sociedade, e a senhora, séria, austera, faz o quê? Não me respondeu.


As pessoas pedem pelo dissimulado, pela palavra fácil, sem análise do seu entorno e em tudo isso vemos ideias pré-definidas de que um religioso não pode ser alegre, que os negros são possíveis bandidos e “justificam” atitudes racistas, que os homossexuais são promíscuos, que o candomblé faz o mal... As pessoas prosseguem sem revisar seu conteúdo de preconceito e não se dão conta que estamos no século XXI.
Lamentável abandono
(Coluna Opinião - Jornal A Tarde - 14/05/2014)


A memória de um povo é o registro do passado, em interação permanente com o seu presente, formando ligações conceituais e afetivas, em ação contínua de firmamento de sua identidade, que modelará o seu futuro. A isso se chama de identidade cultural. No último domingo, o editorial deste nosso diário fala da redenção do Palácio Arquiepiscopal, com o empenho da arquidiocese de Salvador em recuperar o que se encontra abandonado. Coincidentemente, no sábado, fui conhecer de perto a Igreja e o Convento de Santo Antônio, no São Francisco do Paraguaçu, em Cachoeira, à margem do baía do Iguape, no rio Paraguaçu. Uma construção de 1686, que, em ruínas, as suas paredes externas resistem bravamente ao abandono. 

Apenas como registro do nosso desinteresse geral coma nossa história, comentei com amigos, na mesma noite, o que vi e me entristeceu. Constatei, no entanto, que pessoa alguma sabia da existência de tal relíquia ou tinha ouvido falar, muito menos que estivesse em ruínas. O mesmo tinha acontecido comigo, o que me fez conhecê-lo. E você, caro leitor, honestamente, o conhece ou já ouviu falar? Pois é, em tudo isso vemos a nossa falta de comprometimento com o futuro, quando desprezamos, ou pior, destruímos o nosso passado. 

A preservação de ícones, de símbolos da nossa história não deve servir apenas como justificativa na possibilidade turística, isto é reduzir a caminhada de um povo à necessidade de fotos para outros. Esse descaso evidencia em si uma falta de vinculação, de pertencimento a uma Nação, justificando, também, por este viés, uma falta de comprometimento com toda a estrutura de sua origem. O resultado, então, de tudo isso se revela no que vemos pelas nossas ruas: desde o lixo que se joga pela janela dos carros, o vandalismo dos bens públicos, até na falta de civilidade dos dias atuais. É esse todo o legado que estamos deixando para filhos e netos – um país sem referências, funcionando como pauta de reunião de condomínio, com o que ocorrer.


sexta-feira, 2 de maio de 2014

Ocasião e o ladrão
(Coluna Opinião Jornal A Tarde – 30/04/2014)
 
Além de tudo que por estas nossas páginas diárias foi dito sobre a greve da PM, chamou-me a atenção o arrombamento de várias lojas e supermercados que tiveram suas mercadorias roubadas e saqueadas em diversas partes da cidade, desde bairros mais distantes até os mais centrais. Curiosamente, o que se verificou foi que a preocupação não estava no feijão, na carne, mas em aparelhos eletrônicos – depois postos à venda na internet –, em caixas de cerveja e roupas.
Ora, não se pode dizer que as ocorrências são de somenos importância, nem buscar explicações extraordinárias, permissa vênia, como geralmente os estudiosos em antropologia e sociologia fazem. Em verdade, é necessário que não se perca o conceito de crime. É certo, todavia, que há os de maiores impactos e os de menores. Saques, arrombamentos em momentos de greve ou caminhadas... são crimes e precisam ser apenados.
Não é por que um caminhão tombou que a carga está ali e é de todos. O antropólogo Roberto DaMatta afirmou que a rua no Brasil é de todos e ao mesmo tempo de ninguém, um lugar que só se move pela lei na presença ostensiva das autoridades estatais. Ou seja, o povo, em geral, não guarda respeito aos seus deveres civis, à sua obrigação cidadã, salvo quando esteja vigiado. Alguma coisa está errada. Não é verdade que a ocasião faz o ladrão, a ocasião revela o ladrão.
Uma sociedade se evidencia moral e verticalmente enferma quando cada um exerce, à sua maneira, o que julga certo, de acordo com a ocasião e as circunstâncias. A isso se chama de quase barbárie e é o que estamos vendo no Estado brasileiro, em suas plagas.
Não é plausível que se desvalorize socialmente o crime pelo seu poder de dano e ou de repercussão. Crime é crime, o seu apenamento, aí, sim, será concernente aos aplicativos constantes nas leis. São perigosas as manifestações com afirmativas do tipo: há coisas mais importantes para a polícia investigar, para a justiça examinar... Isso gera um clima de danosa licenciosidade.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Pintura Mediúnica de Berthe Morisot

Pintura Mediúnica de Berthe Morisot.
Berthe Morisot (Bourges, Cher, 14 de janeiro de 1841 — Paris, 2 de março de 1895) 
foi uma pintora impressionista francesa.